
- A ordem clássica é o pai da noiva, depois os noivos e, no fim, alguém muito próximo, com um brinde a fechar cada intervenção.
- Na versão moderna falam os dois noivos, muitas vezes um pai de cada lado, e às vezes não há discurso de padrinho nenhum.
- Discursos antes do jantar servem quem fala; discursos ao fim do jantar servem a sala, porque a essa hora já toda a gente bebeu.
- Cinco a sete minutos por pessoa é o tempo de que ninguém se queixa; por volta dos oito, as mesas do fundo começam a conversar.
- Digam a cada pessoa, um mês antes, em que lugar entra, quantos minutos tem e se faz o brinde, e ponham a ordem onde os convidados a possam ler.
A ordem clássica, e quem é cada pessoa
Quem nunca esteve num casamento com discursos a sério olha para a sequência como se fosse um código combinado entre outras pessoas. É mais simples do que parece. A versão rígida, a que vem dos casamentos anglo-saxónicos, tem três discursos seguidos, cada um a terminar num brinde, para que a sala perceba sempre que um acabou e que vem outro a caminho.
Fala primeiro o pai da noiva, ou quem fez esse papel: dá as boas-vindas, diz alguma coisa sobre a filha e brinda ao casal. Respondem os noivos, em nome dos dois, com agradecimentos às duas famílias e a quem veio de longe. Fecha alguém muito próximo, entre nós quase sempre um padrinho ou um amigo antigo: conta as histórias que mais ninguém contaria, lê as mensagens de quem não pôde vir e brinda outra vez aos noivos.
Isto é uma forma, não uma lei. Em muitos casamentos portugueses não há discursos nenhuns e há só o brinde ao bolo; noutros, quem criou a noiva não é o pai dela. O que sobrevive a todas as versões é a estrutura: alguém recebe, os noivos agradecem, alguém fecha com calor, e cada parte acaba num brinde.
A ordem moderna, e o que ela muda
Hoje, na maior parte dos casamentos, falam os dois noivos. Às vezes falam juntos, a trocar parágrafos; mais vezes vai um e o outro vai a seguir, e o segundo discurso costuma ser o melhor porque a sala já está quente. Se só um de vocês quiser falar, digam-no cedo, em vez de deixar o pressuposto ficar por ali.
A segunda mudança comum é um pai de cada lado, em vez de só o pai da noiva. Lê-se como justo, dá à outra família o momento dela e custa-vos cinco minutos. Mantenham os dois afastados na ordem, porque dois discursos de pais seguidos soam ao mesmo discurso duas vezes. Ponham um de vocês, ou um amigo, pelo meio.
A terceira é não haver discurso de padrinho nenhum. Há muitos casais sem cortejo e sem padrinhos a falar, e a sala não dá pela falta. Um amigo de cada lado, um irmão, ou uma pessoa de quem os dois gostam, pode ficar com o lugar de fecho; tudo o que esse lugar tem de fazer é acabar com calor e propor o último brinde. E se a pessoa que teria falado já morreu, uma frase dentro do vosso próprio discurso carrega-a melhor do que um lugar vazio na ordem.
Antes do jantar, entre pratos, ou depois
Esta é a única decisão do cronograma com consequências fora da sala, e depende de duas coisas que nunca aparecem escritas: o que a cozinha está a fazer e quanto é que toda a gente já bebeu.
Falar antes do jantar é o mais generoso para quem fala. Ninguém anda a beber há três horas, a sala está atenta e quem está nervoso despacha o assunto. O custo cai na cozinha. O catering tem uma janela para empratar as entradas; se os discursos se esticarem vinte minutos, essa comida fica debaixo de uma lâmpada ou chega fria, e todos os pratos a seguir escorregam com ela. Este lugar só funciona se cumprirem mesmo os tempos.
Entre pratos distribui-se a carga: uma intervenção depois das entradas, outra depois do peixe, outra com a sobremesa. A cozinha fica com pausas fixas que consegue planear e nenhum bloco de conversa é longo o suficiente para perder a sala. O custo cai em quem fala, que come aos bocados e passa o jantar inteiro à espera, e no ritmo, que nunca chega a assentar.
Ao fim do jantar é o lugar mais tradicional entre nós, quase sempre antes da sobremesa ou junto ao bolo, e é a plateia mais calorosa que vão ter. É também uma plateia que anda a beber desde a igreja, e o mesmo costuma valer para quem tem o microfone na mão. O mesmo discurso demora mais depois de jantar do que teria demorado antes, e ninguém o faz de propósito. Se deixarem tudo para o bolo, à meia-noite, contem com meia sala na pista ou lá fora a apanhar ar. Perguntem ao catering antes de decidir: já viram mais noites destas do que vocês e dizem sem rodeios qual das versões a cozinha aguenta.
Quanto tempo deve durar cada discurso
Cinco a sete minutos é o tempo de que ninguém se queixa. Dez é o teto. A partir daí um discurso deixa de ser um discurso e passa a ser um espetáculo, e tem de ser muito bom para sobreviver à diferença.
Sejam diretos com o tempo, porque pedir a alguém que seja breve quer dizer vinte minutos para quem gosta de plateia. Por volta dos oito minutos, as mesas do fundo começam a conversar. Aos dez, há gente a sair para a casa de banho, crianças levadas para a rua e copos a tilintar. O ruído de fundo sobe, quem está a falar ouve-o, e segue-se uma de duas coisas: ou atropela o final e perde a melhor frase, ou insiste e vai até ao fim, que é pior. Nada disto tem a ver com a escrita. Um discurso brilhante aos doze minutos cai pior do que um discurso normal aos seis.
Somem tudo antes de fecharem a lista. Três discursos de sete minutos, mais as apresentações, os brindes e o tempo que a sala leva a assentar entre eles, dão perto de meia hora de gente sentada e quieta. Cinco pessoas a falar estão mais perto dos cinquenta minutos, e é aos cinquenta minutos que uma boa noite começa a perder pessoas para o bar. Deem a cada um um número de minutos e não um adjetivo, e deixem um cartão na mesa dos noivos com a ordem e as horas.
Quantas pessoas a falar são demais
Três é o clássico, quatro é confortável, cinco já é muito e seis é uma sessão. A conta não é só a dos minutos a mais. Cada pessoa que se acrescenta traz a passagem do microfone, o percurso até ele, a piada sobre quem falou antes e os dois minutos que a sala leva a assentar outra vez. Uma sexta pessoa custa dez minutos, não seis.
A pressão nunca vem da lista que vocês escreveram. Vem do tio que menciona no noivado que já tem umas palavras preparadas, do amigo que simplesmente assume, e da surpresa que um grupo preparou e que ninguém cronometrou: um vídeo, uma canção, um número com fatos alugados. Fechem a lista cedo e fechem-na os dois, para que ninguém possa contornar um pedindo ao outro. Uma resposta, dada pelos dois, acaba com a conversa. Duas respostas diferentes começam uma campanha.
A forma delicada de fechar é uma razão que não tem nada a ver com a pessoa que está a pedir. Dizer que estão a limitar a três para toda a gente estar a dançar às onze é verdade, é sobre a noite e não sobre ela, e não se discute. Depois ofereçam outro sítio para aquilo: um brinde no jantar da véspera, uma leitura na cerimónia, um recado no livro de honra. Quase toda a gente que se oferece para falar quer que se veja que conta, e isso arranja-se sem entregar o microfone.
O que cada pessoa precisa de saber, um mês antes
Mandem a mesma mensagem a toda a gente que vai falar cerca de um mês antes: tempo que chegue para escrever, e perto que baste para os detalhes ficarem na cabeça. Essa mensagem tem de levar seis coisas. Onde entram na ordem e quem fala imediatamente antes. Quantos minutos têm. Se fazem um brinde e a quem. Se há microfone e de que tipo. Onde se põem de pé. E aquilo que a sala não deve ouvir.
Esta última é a linha incómoda, e é a que vos salva. Escrevam-na sem rodeios: um nome que não se menciona, um emprego que alguém acabou de perder, uma morte recente numa das famílias, uma história da despedida de solteiro que teve piada na altura. Quem fala não adivinha, e quem tem mais probabilidade de meter o pé na argola é precisamente quem vos conhece há mais tempo. Nunca ninguém se ofendeu por ter sido avisado.
Uma semana antes, mandem mais uma linha a confirmar que a hora se mantém, ou que mudou. As pessoas ensaiam contra uma hora, e se a cerimónia andou meia hora, o amigo que escreveu sete minutos para antes do jantar deve saber isso por vocês e não à chegada à quinta. É uma tarefa pequena que só existe no último mês, que é onde uma checklist se paga. A sequência completa, das chegadas à última dança, está no guia do cronograma do dia.
Avisem os convidados, e não só quem fala
Um convidado que não sabe que vem aí um discurso é um convidado que está no bar quando ele começa. Atende o telefonema lá fora, leva um filho à casa de banho, pede uma rodada para a mesa. Nada disto é falta de educação. Simplesmente não tinha maneira de saber que a meia hora seguinte já estava ocupada.
Por isso ponham a ordem num sítio onde os convidados a possam ler antes do dia. Na Vowly, esse sítio é o horário na página de convidado, a mesma que eles usaram para confirmar presença, e pode dizer tão pouco como jantar às oito, discursos às dez e meia. Como é uma página viva e não um cartão impresso, quando a cerimónia anda e tudo o que vem atrás anda com ela, muda-se a hora uma vez e todos os convidados veem a nova. E cada um lê na sua língua, o que conta muito num casamento com meia família a chegar de França, da Suíça ou do Luxemburgo, para quem o português dos discursos já custa a acompanhar ao fim de uma noite inteira.
Resolve também o desfile de pessoas a voltar para os lugares aos dois e aos três: se a página disser que os discursos são às dez e meia, quase toda a sala está sentada às dez e vinte e cinco. Sobre o que merece estar nessa página, há mais no guia da página de informações dos convidados.
O material: microfone, apresentações, lugares e nervos
Um microfone, testado ao volume real e com as vozes reais, e não com a voz do DJ na prova de som. Um microfone de mão é melhor do que um de lapela para quem gesticula, e melhor do que um suporte fixo para quem precisa de segurar alguma coisa. Decidam quem é o dono dele e quem o passa a seguir, ou vão perder três minutos a desenrascar um cabo entre cada intervenção.
Alguém tem de apresentar. Um mestre de cerimónias, o responsável de sala da quinta, o DJ ou uma voz alegre e forte entre os vossos amigos servem, mas não pode ser ninguém: a primeira frase da noite é pedir a duzentas pessoas que se sentem, e tem de vir de alguém a quem a sala dê ouvidos. É essa pessoa que anuncia cada um pelo nome e pelo grau de parentesco, o que é genuinamente útil para a metade da sala que não faz ideia de quem é que se levantou.
O sítio onde quem fala está sentado importa mais do que parece. Se a mesa dos noivos for uma linha de frente para a sala, quem fala numa das pontas está a falar por cima da própria família e de costas para metade dos convidados. Peçam-lhes que se ponham ao lado da mesa, ou à frente dela, e não atrás. Se ainda estiverem a desenhar a planta, o guia das plantas de mesas trata da mesa de honra como deve ser.
A quem está nervoso, deem o primeiro lugar. O medo é pior do que a coisa em si, e uma hora de espera transforma um bom discurso num discurso a tremer. Peçam que levem uma cópia impressa, porque os ecrãs bloqueiam e escurecem no pior momento e um telemóvel na mão lê-se como uma mensagem e não como um discurso. Um copo antes, não três. E digam-lhes para escolherem uma cara amiga perto da frente e falarem para essa pessoa, porque uma sala de duzentos é impossível e uma pessoa é fácil.
Perguntas frequentes
- Qual é a ordem tradicional dos discursos de casamento?
- Fala primeiro o pai da noiva, que dá as boas-vindas aos convidados e brinda ao casal. Respondem os noivos, em nome dos dois, com agradecimentos às famílias e a quem veio. Fecha um padrinho ou um amigo próximo, que conta as histórias, lê as mensagens de quem não pôde vir e propõe o último brinde.
- Os discursos são antes ou depois do jantar?
- Antes do jantar dá uma sala mais atenta e pessoas mais calmas a falar, mas põe pressão na cozinha, porque umas entradas já empratadas não esperam vinte minutos a mais. Ao fim do jantar dá a plateia mais calorosa, embora toda a gente, incluindo quem fala, ande a beber há horas e os discursos se estiquem sempre. Dividir pelos pratos é o meio-termo: a cozinha fica com pausas fixas e nenhum bloco de conversa é longo o suficiente para perder a sala.
- Quanto tempo deve durar um discurso de casamento?
- Cinco a sete minutos cada um, com dez como teto absoluto. Por volta dos oito minutos as mesas do fundo começam a conversar e há gente a sair, e não há escrita nenhuma que recupere uma sala que já começou a falar. Deem a cada pessoa um número de minutos, em vez de lhe pedirem que seja breve.
- Os dois noivos podem fazer um discurso?
- Podem, e hoje é o mais comum. Podem falar juntos, alternando parágrafos, ou um a seguir ao outro. O segundo dos dois costuma cair melhor porque a sala já está quente, por isso deem esse lugar a quem estiver menos à vontade com um microfone na mão.
- Quantos discursos de casamento são demais?
- Três é o número clássico, quatro é confortável e cinco já é muito. Cada pessoa a mais acrescenta os minutos dela mais a passagem do microfone, a apresentação e o tempo que a sala leva a assentar, por isso uma sexta pessoa custa mais perto de dez minutos do que de seis. Acima de uns cinquenta minutos de discursos, os convidados começam a escapar-se para o bar.
- Quando se deve avisar quem vai falar no casamento?
- Cerca de um mês antes do dia. Digam a cada pessoa onde entra na ordem, quantos minutos tem, se faz um brinde, se há microfone e o que a sala não deve ouvir. Depois mandem uma mensagem curta uma semana antes a confirmar a hora, porque quem fala ensaia contra um horário concreto.
e os discursos cumprem as horas.
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